sexta-feira, 28 de julho de 2017

RIO VIOLENTO - DESABAFO DO PM ROBERTO SANTA ROSA




“O mundo está perigoso para se viver! Não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa dos que o veem e fazem de conta de que não viram.” (Albert Einstein)








Há um ano...
Eram 18 horas e um dia absolutamente comum. Eu, sujo de graxa, saia debaixo do meu carro, que vivia dando dor de cabeça, e corria esbaforido para pegar uma camisa e ir buscar minha mulher que vinha do trabalho. Conversávamos um pouco, contávamos um troco, dividíamos o pouco. E às vezes brigávamos. Naquele dia, tudo correu em paz.
Às 20 horas, eu catava correndo farda e arma e saia varado, como sempre atrasado, para assumir o serviço às 20:30. De lá de fora eu gritei que “amanhã” faria o que ela havia me pedido uma semana atrás.
Som alto no carro e eu só pensava que sexta e sábado estaria de folga. A ligação para minha mãe, com quem eu não falava havia dez dias, também ficou para “amanhã”. Tudo exatamente igual: Um mar de carros nas ruas, gente acelerada nos seus afazeres, camelôs, engarrafamentos, buzinaços e eu, prestes a assumir o nobilíssimo dever constitucional de garantir que toda aquela desordem social ocorresse em paz. Eu que sonho como aquelas pessoas apressadas, cheio de dívidas e dúvidas como elas, sentindo medo como elas, agora, atravessava o vale da sombra da morte (prazer, Rocha Miranda) com a confiança de quem escolhe com a alma o que fazer da vida.
Deixando tudo para trás, torcia apenas para que outros irmãos guardassem os meus, enquanto eu guardaria os deles e de outros. Era só o que importava. Todo o resto “para amanhã”.
Por muito pouco o "amanhã" não chega.
Às 8 horas, próximo ao término do serviço, quis o Senhor que aqueles facínoras nos encontrassem em seu caminho. Profissionais da indústria do crime, com armamentos melhores do que os dos profissionais do Estado, em maior quantidade e dispostos a passarem por cima de nós, de mim e de meu parceiro, para atingirem sua meta criminosa.
Os covardes não sabem que entre o capim e um homem há uma diferença abissal. Eles até podem passar por cima do corpo de um homem. Mas, não antes de saborearem o reflexo de sua fúria.
Na verdade, o “amanhã” não havia chegado.
Eu já não pensava mais nas folgas de sexta e sábado. Eu só pensava em viver, pensava em ouvir ”Alma Nua” uma vez mais e no dia das crianças. Eu não tinha o direito de morrer daquela forma.
Daquele dia, me resta o barulho da sirene, o companheirismo de um Ferreira, o altruísmo de um Vilanova, o amor de uma Cláudia e a bravura de um Fernandes, ao qual eu reservei o mínimo de forças para, já no leito do hospital, venerá-lo e agradecê-lo pela honra e pela fidelidade no combate, antes de apagar sob efeito de remédios. Acordei na madrugada seguinte.
O “amanhã” chegou, porém, nunca mais como um dia foi.
Hoje reflito o quanto tudo isto valeu. Dois mortos, um preso, sete armas apreendidas, minha perna amputada... depois disto, mais de oitenta chefes de família foram assassinados por fazerem parte da engrenagem mais importante do Estado. E as consequências são a condescendência de legisladores com a criminalidade que beira à cumplicidade, a incitação contra a “polícia racista e assassina”, feita por “artistas” de quinta como Gregório Duvivier, E um misto de constrangimento e desespero ao ter que explicar todo dia para os filhos que não somos bandidos e não temos salário.
Mas, eu prefiro pensar que, ao contrário do que pregam os progressistas “paz e amor”, sempre haverá o pior do ser humano a caça de uma vítima por aí. Nós, que descemos ao inferno para levar a luz, sabemos disto. Então, nessa hora, eu penso que fiz minha parte. E rezo para que todos os homens e mulheres de fibra se levantem. Pois, quem filosofa sobre a sociedade num barzinho do baixo gávea acha que a polícia militar tem que acabar. Mas, nós sabemos que, sem a polícia, não existiria sociedade alguma.
Que Deus Proteja a todos.
Tenham fé.
Sejam fortes.
Tudo passa...
Obrigado a todos que, de alguma maneira, ajudaram a me reerguer!

MEU COMENTÁRIO

Há textos que não cabem reparos de tão contundentes e profundos. É o caso deste, da lavra do PM ESCRITOR ROBERTO SANTA ROSA. Porque ele não retrata com a perfeição dum Picasso somente o seu lado humano e seu impressionante heroísmo. Reproduz também, com exatidão, o desapego máximo e heroico de seus companheiros de guarnição, que não o deixaram ferido de caminho, que não saíram da linha de fogo sem antes proteger o companheiro ferido.

Existe no texto do Roberto Santa Rosa uma profundidade filosófica que emociona. Mais ainda: prova que um comandante de combatentes dessa estirpe não precisa nem ser valente, pode ser até covarde, mas na retaguarda dos quartéis há de ser justo e humano no trato dos anônimos que não fogem à luta.

São homens e mulheres que, embora maltratados e malvistos pela hipócrita sociedade a que servem, defendem-na com um denodo extraordinário. Homens e mulheres assim só precisam de compreensão e de justiça na retaguarda. Precisam sentir no coração, verdadeiramente, o respeito e o amor que seus superiores por eles sentem. Não precisam de mais nada porque os atributos do combatente lhes pertencem por direito de ações, de feitos e de feitios inolvidáveis.

Mas a realidade desses homens e mulheres é outra, eles e elas não recebem de seus superiores, muitas vezes, nem a atenção mínima, a não ser aquela, maliciosa, de anotar suas pequenas faltas para puni-los e depois se apresentarem aos seus igualmente maliciosos e insensíveis chefes como "disciplinadores", ignorando o que se passa na alma de cada herói que se oculta no anonimato da tropa numa corporação que, em contrário, deveria obrigar cada superior a chamar o subordinado pelo primeiro nome, sem a necessidade de estar estampado no seu peito, o "nome de guerra".

Mas o regulamento é mau, é insensível, é borduna de bugre pronta para descer sobre o quengo do combatente que no sufoco eventualmente esqueça o nome do seu comandante, não sendo a recíproca verdadeira. Sim, o regulamento disciplinar é mau na origem, vem de uma época distante em que os covardes às vezes fugiam da guerra, e falo de II Grande Guerra Mundial ou talvez de guerras multinacionais de antes. Falo, portanto, de tratamento desumano pautado na desconfiança e na malícia de quem inveja o corajoso.

Porque só atacam os corajosos com as armas da pena e da tinta os covardes. Já os corajosos se entendem, sempre se entendem, e se socorrem mutuamente no campo de guerra. Porém, no campo seguro dos quartéis não sabem muitas vezes se defender dos covardes que se fingem heróis atrás de uma farda que nunca sangrou nem sentiu o cheiro terrível do enxofre. Na verdade, nem viu uma farda ao lado ensanguentada, a farda do herói que lhe salva a vida sem que ele se aperceba disso.

Infelizmente, assim são os superiores em relação à tropa, com raras exceções, que destaco para não parecer que faço demagogia. Não! Não faço! Há superiores que merecem o amor da tropa. No fim de contas, se não fosse assim seria o fim de tudo. Ocorre, todavia, que esses justos são poucos, são minoria, pois a maioria não se impõe pelo exemplo do denodo tal e qual o seu subordinado, mas pelo ferrão das letras frias do que resumem ao puni-los dizendo que lhe ofertaram a "ampla defesa e o contraditório" no processo disciplinar, sem considerar que quem apura é quem pune, não havendo separação clara entre acusação e defesa nos processos administrativos, eis que o sistema de correição apura e pune, e a autoridade coatora somente assina o que lhe vem pronto e acabado. E assim é maltratado o herói, este, que só se destaca por meio do infortúnio da morte ou do ferimento grave e definitivo que o afasta do combate e da vida útil.

Mas o PM ROBERTO SANTA ROSA é exceção. Herói de fato e de direito, perdeu a perna, mas não perdeu o tino e a brilhante caneta que reluz em suas mãos ao escrever textos literários reais e impressionantes, uma dádiva para quem os lê. É o caso deste que comento, dentre tantos outros em que o PM, EXÍMIO ESCRITOR, deixa a sua emoção subir do coração à mente e sair pelos dedos para alcançar as almas vivas do mundo e quiçá as almas mortas de tantos heróis que se foram nesta guerra insana contra a criminalidade.

Que assim seja! Que venha o ESCRITOR dando asas à emoção! Pois os combatentes vitoriosos sempre dependeram do estímulo intelectual de homens e mulheres que também muitas vezes morreram por defenderem com papel, caneta e tinta suas, convicções, estas que de algum modo estimularam reações coletivas em prol da LIBERDADE e da JUSTIÇA.

Neste ponto homenageio o PM e ESCRITOR ROBERTO SANTA ROSA com um texto de Erico Verissimo em Solo de Clarineta:


“Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.”



Que fique aqui minha continência! Não a do oficial que se rende ao PM ESCRITOR, mas a do SOLDADO Nº 4632, EMIR CAMPOS LARANGEIRA, do 1º BATALHÃO DE CAÇADORES (atual 7º BPM, sediado em São Gonçalo). Sim era BATALHÃO DE CAÇADORES, não como hoje em que os batalhões são de CAÇADOS, tal como, em momento inspirado, disse-o o ex-comandante-geral, Cel PM Ubiratan Angelo:

"Um tiro de fuzil acerta o que o atirador não vê.” (coronel PM Ubiratan Angelo, ex-comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro – Entrevista à Revista ÉPOCA – Hudson Corrêa – 30/01/2015)